Por Raoni de Assis
As manifestações do dia 13 e do dia 15 deixaram claramente expostos os erros estratégicos cometidos pelo PT e pela presidenta Dilma nos últimos meses. Não porque houve mudança no quadro político de outubro para cá, tendo em vista que os manifestantes não foram eleitores de Dilma e do PT nas últimas eleições.
Os protestos de domingo por todo o Brasil trouxeram as ruas o público que em outubro último votou contra a presidente Dilma e o PT optando por candidaturas de oposição. Com exceção de São Paulo, onde a mobilização foi realmente grande (segundo o DataFolha 210 mil pessoas, segundo a PM 1 milhão), nas demais capitais os números foram menores do que o esperado pelos organizadores “apartidários”. A estratégia da oposição é clara: não deixar sair da pauta política o clima eleitoral para tentar desgastar o governo e embaralhar o debate. E aí vale tudo: reunir no mesmo barco desde grupos que pedem a intervenção militar, outros que querem Impeachment (e acreditam piamente que Aécio assumiria a presidência) e até mesmo pessoas que querem a saída do PT mas não querem o Impeachment.
O que deve ser analisado pelo PT é como reagir a esta situação. No período eleitoral, o partido e a candidata Dilma procuraram estar mais próximos das pautas de esquerda, do movimento social e isso surtiu um efeito muito positivo de apoio a presidenta e ao PT. Milhares de pessoas foram às ruas para contrapor as mobilizações dos tucanos e criou um caldo cultural que poderia contribuir para que o segundo governo Dilma avançasse nas mudanças em um rumo mais popular.
Contudo, a Presidenta Dilma não procurou fortalecer este sentimento que se formou no período eleitoral. Ao contrário. Dilma conseguiu esfriar aquela “onda vermelha” que foi as ruas e garantiu uma suada vitória para a Presidenta e o quarto mandato popular no Brasil.
Desde a formação do ministério, o descontentamento cresceu na base de apoio popular da Presidenta que começou a ficar desmotivada. Nomes como de Kátia Abreu, Gilberto Kassab e Joaquim Levy foram “engolidos goela abaixo” pelos militantes do PT e também de outras forças políticas progressistas que compõem o governo. A justificativa para formação de tal ministério tão longe do que foram as reais forças que a levaram a vitória, era justamente a disputa no Congresso – o mais conservador dos últimos tempos.
Mas essa virada ministerial não garantiu a vitória no congresso, aliás a derrota mostrou que de nada adiantou essa guinada. Depois disso, as medidas tomadas por Levy e pelo governo no que tange a política econômica também desagradaram a muitos militantes além de alguns recuos em benefícios dos trabalhadores.
Aliás a “governabilidade” buscada por Dilma só mostrou o quanto é necessária uma reforma política. O atual modelo só faz com que esse tipo de barganha esteja muito enraizada no jogo político brasileiro. O financiamento privado de campanha é, sem dúvida, o berço da corrupção no Brasil.
Soma-se a isso, a disposição das grandes mídias de contribuir para fortalecer as manifestações e desgastar o governo, haja visto o que fez a Rede Globo durante todo o domingo, 15. Os jornalistas da Globo News nem procuravam disfarçar mais…
O ministro Aloízio Mercadante deu a seguinte declaração no domingo à tarde: “É fácil manifestar contra, difícil é manifestar a favor” ao analisar as manifestações do dia 13 a 15.
Eu, particularmente, discordo. Não é difícil reunir a massa para apoiar as transformações necessárias que o país precisa e pautar a urgente Reforma Política, que na minha opinião é a principal pauta do momento. As eleições provaram isso. O que o PT e a Presidenta Dilma devem fazer é não apenas tentar a conciliação com as forças que a estão esmagando e sim fortalecer os avanços e as forças que podem defende-la. Ou Dilma procura recuperar este apoio rumo a uma política mais próxima àquela que a levou a vitória ou quando perceber que isso era necessário não haverá mais ninguém para apoiá-la.
A tática de conciliação não ajudará Dilma agora. O discurso centrado no desenvolvimento econômico não consegue mais sustentar o governo e isso era previsível desde o início. Sem mudanças estruturais, como na educação, muitos que ascenderam durante o governo do PT acabaram comprando o discurso de ódio de uma elite muito raivosa e conservadora e sendo cooptada por ela. Jovens atualmente não conheceram o que foram os anos 90 e a mídia não irá ajudar em uma comparação justa, ao contrário.
Nada é tão atual como a frase de Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”.
Para mobilizar e sair da defensiva que a mídia conservadora e grupos poderosos estão impondo é preciso fazer aquilo que Dilma defendeu na campanha “governo novo, ideias novas”. Propor uma refomra política, propor uma democratização da mídia e procurar apoio popular.
A bandeira deve ser Reforma Política Já! Pelo fim do financiamento empresarial de campanhas.
Paulo Braga
16 de março de 2015 às 10:09
Concordo com a análise em todos os sentidos. Parabéns!
Dalton Carlos
17 de março de 2015 às 0:32
Raoni não o conheço pessoalmente mas já te considero pacas. Ótimo texto, análise lúcida.